ISSN 1519-7670 - Ano 15 - nº 600 - 27/7/2010
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A tragédia haitiana
Postado por Carlos Castilho em 14/1/2010 às 23:52:18
 
 

Quem já cobriu catástrofes sabe que as dificuldades são tantas que é difícil para o repórter manter a sua capacidade de entender os dramas humanos que acontecem ao seu redor. Faz parte do ônus da profissão. Para compensar esta perda de sensibilidade é que existem os editores, que estão mais distantes do caos e podem perceber aquilo que escapou do repórter.

 

A cobertura do terremoto no Haiti ficou burocrática porque os editores se preocuparam mais com as peripécias dos correspondentes para chegar a Porto Principe do que com o drama real que estava acontecendo nos escombros da capital haitiana. Acostumados a esperar lágrimas de sobreviventes, os editores do Jornal Nacional não conseguiram ver os sintomas de estoicismo nos habitantes de um país onde o pior parece que está se transformando numa sina.

 

Poucas vezes uma tragédia foi tão rapidamente percebida pela opinião publica mundial e conseguiu passar uma carga emocional tão grande para nós brasileiros. Não foi apenas a morte de Zilda Arns e dos 14 militares que nos comoveram. É porque, mesmo sem muita informação, nos demos conta de que a catástrofe golpeou de novo um país que ainda tentava se recuperar do caos político, depois da crise de ingovernabilidade em 2004.

 

A tragédia haitiana é tão grande que só nos resta respeitar o sofrimento deste povo e homenagear a sua resistência propondo um plano de recuperação do país que vá muito, mas muito além do assistencialismo e do show de solidariedade formal. O calvário haitiano merece que o resto do mundo faça o que desde o final da Segunda Guerra Mundial não é mais feito: reconstruir um país desde os alicerces.
Comentários (10)
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Gerson  Chagas, Professor (Mogi das Cruzes/SP)
Enviado em 17/1/2010 às 12:13:33

Como foi muito bem expresso aqui, a tragédia maior não é propriamente a pontual , e sim a que se perpetua, por conta de uma geopolítica que mantém confinados na miséria a parcela majoritária da Humanidade. Claro que ajudar é e será sempre preciso, mas não apenas nos momentos de comoção, amparados, de um lado, pela nobre solidariedade, porém, por outro, pela nefasta morbidez, a qual é um atrativo irrestível para a midia , carreando os discursos piegas e inócuos. É nessa hora que o verdadeiro jornalismo deveria vir à tona, alertando para o colossal dilema gerado pela desiguldade, pela falta de recursos minimos, oportunidades, enfim, uma nova ordem mundial que gerasse realmente um ordenamento, e não apenas e tão somente a manutenção do que permito-me rebatrizar de status caos. Infelizmente, isto é algo que ainda está muitíssimo longe de acontecer
Nelson Francisco Sul D`Angola  Sul D´Angola, Estudante de Direito e de Jornalismo (Luanda/IN)
Enviado em 16/1/2010 às 22:55:16

o grande observador dos acontecimentos de interesse publico e certamente o jornalista, que tem a missao de informar e ser informado sobre um facto de interesse geral, carlos castilho, disse e muito bem pensado que o calvario haitiano merece que o resto do mundo faça o que desde o final da segunda guerra mundial nao e feito: construir um pais desde os alicerces (fim de citacao). a tragedia haitiana e certamente para um reporter que presencia "in lock" um momento unico, impar e deficil de manter simplesmente a atitude de recolher, colher, apurar os factos para possivelmente ser divulgado. somos missionarios e como missionarios tambem vivemos os sofrimento dos outros. o que carlos castilhos relacta neste pequeno texto jornalistico, e uma forma de dar a sua contribuiçao a nao de WY CLEFF JEAN, apelando aos paises desenvolvidos e nao so, a unirem-se em torno da reconstruçao do hiati. Que ate ao momento nao sei se ainda o posso chamar de um estado. vergonhoso sao os paises africanos, que nem sequer conseguem ajudar um estado que necessita de tudo que seja uma ajuda!... mais uma vez, e caso para se dizer que os paises africanos, incluindo o meu(angola), sao herdeiros de falta de soliedariedade
Diva  Pio, Advogada (Sao Paulo/SP)
Enviado em 16/1/2010 às 15:04:01

A tragédia haitiana é a tragédia de todos nós, irmãos em humanidade. A indiferença, o silêncio, o desinteresse campeiam no Planeta e, de repente, somos tomados de "surpresa" pela situação gritante de um povo que vive (?) sem infra-estrutura e recursos básicos para sua sobrevivência.
Arnoldo  Santos, Jornalista (Manaus/AM)
Enviado em 16/1/2010 às 04:19:38

Considerando o trabalho dos correspondentes da TV Globo, no Haiti, seria bom que os apresentadores acompanhassem a aparente liberação do formato padrão da emissora (texto em off + aparição do repórter + entrevista gravada...) para explicar tal mudança. Para um telespectador mais crítico, e porque não dizer com memória mais eficaz, pode causar a impressão de que tornou-se uma reedição do formato "aqui agora" que, em 1991, chegou a ameaçar a própria Globo pelo SBT. Quero crer que foi uma imposição da limitação técnica lá no país arrasado. Pra ficar mais fácil editar e enviar a reportagem para o Brasil, via internet ou satélite, menos texto gravado pra editar (OFF) seria uma boa opção técnica. Sinceramente, quero acreditar nesta última tese. Sorte aos jornalistas da cobertura da tragédia, mas muito mais equilíbrio e consciência nessa hora.
Herman  Fulfaro, taxidermista (Sorocaba/SP)
Enviado em 15/1/2010 às 19:24:42

Se fosse me basear na média do pensamento exposto até aqui começaria por me arrepender do depósito que fiz ontem na conta da Cruz Vermelha. Mas, como sou da opinião que mais vale acender uma vela do que ficar amaldiçoando a escuridão, os dados para eventuais contribuições podem ser encontrados aqui: http://colunistas.ig.com.br/luisnassif/2010/01/14/s-o-s-haiti/
Ivete  Depelegrim, Publicitária/Acadêmica de Com Soc. Jornalismo (Maceió/BA)
Enviado em 15/1/2010 às 18:54:18

"Eu pessoalmente acho que a cobertura está passando da tênue linha do exagero. Você sabe que a curiosidade (inclusive a mórbida) das pessoas em casos detragédias como essa elevam a venda de jornais e aumentam em alguns pontos o "ibope" de telejornais, porisso acho que já está havendo uma exploração emocional do assunto. Fora que me incomoda demais a encenação de âncoras apresentando fisionomias de comiseração, como se realmente sofressem com o drama de uma população negra e miserável que sofre uma trédia, quando em várias outras ocasiões demonstraram asoluto desprezo por pessoas humildes. Não dá para acreditar e toda essa piedade desse pessoal elitista. eu sei que vão dizer que a técnica de jornalismo pede para que os jornalistas deem a entonação que a notícia pede, mas em casos como uma tragédia como essa deveriam deixar a encenação de lado e se limitar a mostrar uma fisionomia serena que não demonstre tanta falsidade. Ontem eu escrevi algo nesse sentido: A cobertura "over" do drama do Haiti" (LEN) Caro Len: concordo contigo. A cada dia o jornalista se desumaniza infelizmente e quanto a cobertura do fato ocorrido no Haiti é sim um exagero programado, para de fato desfocar o que acontece bem "debaixo do nosso nariz" aqui no Brasil. Lamento pelo povo sofrido do Haiti que merece RESPEITO EM SUA DOR, além de "esmolas dadas por países "solidários.""
Odracir  Silva, pesq. cientifico/n.c. (Sao Paulo/SP)
Enviado em 15/1/2010 às 17:02:33

Concordo c/ o quase tudo, mas ... na boa... o tal jornal cidadao jaa nao ee assim tao novo. A tragedia do tsunami laa no SE asiatico, ou entao, as eleicoes e manifestacoes no Ira tb tiveram boa parte da cobertura feita por "amadores". Mesmo o 9/11, nas torres gemeas, teve varios relatos das pessoas in loco. O terremoto do Taiti foi um evento q ficou perto de casa (aumentada pela morte da Dna Zilda Arns e pelo envolvimento do Brasil), por isso ee mais relevante para nos. A grande questao ee, se nao houvesse o envolvimento do Brasil, seaa q a tragedia teria o mesmo impacto para nos?
ELIZANGELA  LEMES, FUNC.PÚBLICA (CAMPO GRANDE/MS)
Enviado em 15/1/2010 às 16:49:15

Boa Tarde !! Há três meses a revista Época fez uma reportagem sobre o belíssimo trabalho que os soldados brasileiros vinham fazendo no Haiti. Trabalho este que merecia destaque na mídia onde quase nada aparecia sobre a Missão de Paz brasileira no Haiti.http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI93699-15223,00-MISSAO CUMPRIDA.html . A reportagem citava como os soldados estavam ajudando a população na reconstrução da sua cidadania. Agora, novamente estes bravos guerreiros terão que recomeçar seu trabalho no Haiti não apenas pobre e violento, mas também arrasado pelo terremoto. Que Deus abençõe este povo e os que colaboram com eles.
Fábio  de Oliveira Ribeiro, advogado (Osasco/SP)
Enviado em 15/1/2010 às 13:27:58

ma onde de solidariedade se espraia pelo mundo. Organismos internacionais e muitos governos anunciaram que vão doar centenas de milhões de dólares para socorrer os haitianos aflitos. Meus botões ficam arrepiados. Eles sabem que os oportunistas sempre procuram as corredeiras de dinheiro. No Haiti não será diferente. ONGs e empresas especializadas em abocanhar contratos de ajuda e reconstrução chegarão na grana antes que a grana chegue às verdadeiras vítimas. Mas nada disto parece interessar aos jornais, especialmente aos que são televisados. Estes, como sempre, preferem se concentrar no show de imagens da terra devastada. Exploram escancaradamente a dor e as lágrimas das vítimas sem pagar um centavo de direitos de imagem às mesmas. Tenho vontade de rir quando vejo os telejornais se derreterem de elogios à solidariedade internacional. "Obama anunciou que vai doar 100 milhões de dólares ao Haiti." - dizem abobalhados alguns ancoras. E eles, jornalistas bem remunerados, vão doar o salário do mês para ajudar alguns haitianos? Duvido muito. O resto você pode ver aqui: http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2010/01/462954.shtml
LEN  do blog, Químico (Maricá/RJ)
Enviado em 15/1/2010 às 10:30:26

Bom dia Carlos, excelente artigo. Eu pessoalmente acho que a cobertura está passando da tênue linha do exagero. Você sabe que a curiosidade (inclusive a mórbida) das pessoas em casos detragédias como essa elevam a venda de jornais e aumentam em alguns pontos o "ibope" de telejornais, porisso acho que já está havendo uma exploração emocional do assunto. Fora que me incomoda demais a encenação de âncoras apresentando fisionomias de comiseração, como se realmente sofressem com o drama de uma população negra e miserável que sofre uma trédia, quando em várias outras ocasiões demonstraram asoluto desprezo por pessoas humildes. Não dá para acreditar e toda essa piedade desse pessoal elitista. eu sei que vão dizer que a técnica de jornalismo pede para que os jornalistas deem a entonação que a notícia pede, mas em casos como uma tragédia como essa deveriam deixar a encenação de lado e se limitar a mostrar uma fisionomia serena que não demonstre tanta falsidade. Ontem eu escrevi algo nesse sentido: A cobertura "over" do drama do Haiti http://bit.ly/4uUvzK abraços
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Carlos Castilho
* Ex-repórter - revista Fatos & Fotos
* Ex-redator internacional - JB
* Ex-editor internacional - Opinião
* Ex-editor telejornais - TV Globo
* Ex-chefe do escritório da TV GLobo em Londres
* Ex-redator - Cadernos do Terceiro  do Terceiro Mundo;
* Ex-correspondente latino americano  do jornal Público/Lisboa
* Ex-editor internacional do JB;
* Ex-editor associado do The World Paper/ Boston;
* Ex-editor latino-americano da agência IPS - Costa Rica;
* Ex-consultor de advocacy na mídia para a União Européia;
* Professor de Jornalismo Online , Faculdades ASSESC (Florianópolis);
* Professor de Projetos Multimídia (pós-graduação latu senso) no CESUSC / Florianópolis;
* Professor de Jornalismo Online (curso a distância) no Knight Center, Universidade do Texas; 
* Autor do capítulo Webjornalismo no livro No Próximo Bloco - Editora PUC/Rio -2005.
* Autor do prefácio e tradução do livro Jornalismo 2.0, de Mark Briggs, publicado pelo Centro Knight, da Universidade do Texas.
* Mestre em Mídia e Conhecimento pelo EGC/UFSC. 
-Reside em Florianópolis / SC
email ccastilho@gmail.com


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